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terça-feira, 23 de março de 2010

GNOSE

Gnose, literalmente, quer dizer "conhecimento". Mas na literatura gnóstica não se trata de modo algum de um saber qualquer. A gnose é um conhecimento dotado de maravilhosos prestígios.Mas, se até os eruditos e as pessoas cultas desconhecem (ou conhecem de forma equivocada) o que é Gnose, logo, o grande desafio que se apresenta aqui é aprender a distinguir o simples conhecimento acadêmico, a simples erudição e a simples cultura intelectual de "conhecimento revelado" ou "conhecimento divino".

Inicia-se aqui, então, o mesmo drama de tantos outros incompreendidos do seu tempo, como Karl Gustav Jung, nascido em 26 de julho de 1875, no lugarejo de Kresswil, Cantão de Thurgau, Basiléia, Suíça. Jung foi – e ainda é - vítima de um raro fenômeno que ilustra bem o que estamos tentando dizer. Para muitos, Jung é considerado um homem religioso, um místico, um bruxo, um esoterista (mas, isso era a última coisa que passava pela sua cabeça). Mas, em vida sempre se negou a seguir e a professar a doutrina de seu pai (pastor luterano) ou qualquer outra religião. Suas inquietudes espirituais só foram preenchidas e resolvidas quando teve acesso à “Divina Gnosis” e à “Alquimia” - justamente duas formas do conhecimento antigo muito ligadas ao gnosticismo clássico.

É que Jung, como os gnósticos, negava-se a fazer parte de um sistema religioso morto. Por isso, dedicou sua vida à busca, à compreensão e à explicação de Deus como algo vivo, concreto e experimentável, fazendo dessa busca a base de todo o seu trabalho. Como conseqüência dessa atitude, que sustentou ao longo de toda sua larga existência, de um lado conseguiu o desprezo dos religiosos, crentes e teólogos por jamais aceitar, como vaca de presépio, as arengas de uma fé destituída de vida e conteúdo, e de outro, recebeu o descaso e o escárnio dos supostos homens de ciência (os que se dizem homens de saber). É que Jung não via nenhum inconveniente em mesclar Deus com os objetos da pesquisa científica ortodoxa – algo que horroriza hoje as mentes acadêmicas.

É aqui, então, que jaz o grande desafio de levar ao público não-iniciado os mistérios da “Divina Gnosis”, a mesma que deu a Jung (e a tantos outros ao longo da história) as respostas que buscava para suas inquietudes espirituais. Aqui, já aparece a primeira e grande diferença entre um "gnóstico" e um "crente". O gnóstico sabe por experiência direta; não precisa seguir ninguém, nem a religião, nem a ciência. Já o crente é um seguidor, e, tudo que julga saber é extraído do trabalho de terceiros; é alguém sem idéias próprias; alguém que não aprendeu a pensar por si mesmo.

Um gnóstico não tem opiniões; ele vivencia por si mesmo as verdades e realidades do mundo, da vida e do universo. Um crente só tem opiniões porque jamais experimentou coisa alguma por si mesmo. Somente se limita a ler, a acreditar e a seguir teorias e dogmas - sejam eles científicos, filosóficos ou religiosos.

Poucos podem possuir este conhecimento, um entre mil, dois entre dez mil.

Simão, o Mago, começa assim sua grande "Revelação" (Apophasis):

Isto é o que se expressa na Revelação da Voz e do Nome, que provém do Pensamento e do Grande Poder Infinito. Por isso será selado, escondido e conservado na morada onde a raiz do Todo tem seus fundamentos.

Ao contrário do que dizem os inimigos da Gnose, o gnóstico não é um fanático nem um inimigo social ou das religiões. Um gnóstico, simplesmente, quer saber por si só, diretamente, sem intermediários, e ir além da esfera das opiniões pessoais e das especulações meramente intelectuais. A gnose, posse dos iniciados, opõe-se à vulgar pistis (crença) dos simples fiéis. É menos um "conhecimento" propriamente dito que uma revelação sesecreta e misteriosa. As seitas gnósticas pretendem possuir livros de origem alógena, ou seja, de origem exterior e superior ao mundo no qual nos debatemos.O gnóstico trabalha com capacidades desconhecidas de cognição que estão dentro de si para experimentar diretamente as grandes verdades do mundo real.

Todos os gnósticos cristãos pretendem herdar, por vias misteriosas, os ensinamentos secretos dados por Jesus a seus discípulos: Basílides, por exemplo, pretendia receber de Matias as doutrinas esotéricas reveladas a este apóstolo pelo Salvador. Os sectários gnósticos fizeram circular muitos Evangelhos apócrifos: o Evangelho segundo os Egípcios, o Evangelho de Maria. O Apócrifo (no sentido literal da palavra grega: "Livro secreto") de João, etc. Gnose implica transmissão de ensinamentos secretos, de "mistérios" reservados a um pequeno número de "iniciados", à "geração de fé inabalável".

Todas as controvérsias que surgiram nos primeiros tempos do cristianismo – e que ainda são alimentadas no mundo moderno - são devidas, justamente, ao fato de a Gnose designar um conhecimento mais profundo das verdades dogmáticas que eram apresentadas aos fiéis da época. Teódoto, por exemplo, conceituava que "a filosofia gnóstica é como uma espécie de visão imediata da verdade", ou seja - e isso é muito importante: gnose é algo distinto da simples erudição adquirida através de leituras e estudos teóricos. Especialmente nos dias atuais, quando a ciência e a educação preconizam um conhecimento puramente intelectual, empírico e mecânico, isso se torna importante.

Em que se distingue das outras doutrinas teosóficas ou ocultas? "Chama-se ou pode ser chamada gnosticismo -também gnose- toda doutrina ou atitude religiosa fundada na teoria ou na experiência da obtenção da salvação pelo conhecimento". A gnose traduz sempre uma necessidade individual de salvação, de liberação:

"..a gnose - escreve Puech - é uma experiência ou refere-se a uma eventual experiência interior destinada a converter-se em estado inamissível (latim: inamissibilis, que não pode se perder"), através do qual, no curso de uma iluminação que é regeneração e divinização, o homem se cobra em sua verdade, volta a recordar e adquire outra vez consciência de si mesmo, ou seja, conhece simultaneamente sua natureza e sua origem autênticas. Através desta experiência conhece-se ou reconhece-se em Deus, conhece Deus e aparece ante si mesmo como emanado de Deus e alheio ao mundo, adquirindo assim, com a posse do seu "eu" e da sua verdadeira condição, a explicação do seu destino e a certeza definitiva da sua salvação, ao descobrir-se merecidamente salvo para toda a eternidade."

A gnose responde sempre a uma angústia subjetiva do indivíduo, obcecado pelos grandes enigmas metafísicos. A Pistis Sophia ("Fé e Sabedoria"), a mais célebre das obras gnósticas em língua copta, contém uma longa enumeração dos conhecimentos dos quais se beneficiam as almas eleitas: Por que foram criadas a luz e as trevas, o caos, os tesouros da luz, os ímpios, os bons, as emanações da luz, o pecado, o batismo, a cólera, a blasfêmia, a injúria, o adultério, a pureza, a soberba, o riso, a difamação, a obediência e a humildade, a riqueza, a escravidão, porque existem os répteis, os animais selvagens, o gado, as pedras preciosas, o ouro, a prata, as plantas, as águas, o ocidente e o oriente, as estrelas, etc.. Ou seja, ao revelar-lhe o mistério que cobre sua origem e seu destino, a gnose permite ao homem compreender o significado de todas as coisas.

Um "conhecimento" tal, uma "iluminação" semelhante, convertem seu beneficiário em um ser influente:

Pois o homem é um ser vivente divino, que não deve ser comparado com os demais seres viventes terrestres, e sim com os que habitam acima, no céu, e que se chamam deuses. Ou melhor, se é necessário se atrever a dizer a verdade, é ainda acima destes deuses que se encontra o homem realmente homem, ou existe ao menos uma completa igualdade de poder entre uns e outros.

Efetivamente, nenhum dos deuses celestes abandonará a fronteira do céu nem descerá sobre a terra, mas o homem eleva-se até o próprio céu, o mede e o conhece de um extremo a outro, capta tudo com exatidão e supremo prodígio, sequer tem necessidade de abandonar a terra para estar no céu: tão longe se estende seu poder.

Sem nenhum ranço de fanatismo, e apenas para salientar um aspecto da gnose em seu mais exaltado grau, o fato é que as lideranças políticas e religiosas de todos os tempos sempre temeram e detestaram a gnose e os gnósticos justamente por causa da implicação social das possibilidades que esse conhecimento oferece: um gnóstico não depende de ninguém e de nada porque se desapegou de tudo e de todos; vive de Deus e para Deus.


Para melhor compreender a profundidade das implicações dessa realidade, basta examinarmos algo da história e das tradições religiosas antigas. Por exemplo, Jesus respeitava as leis, a sociedade, a família, o governo, tudo. Mas, não era dependente do sistema religioso da época. Reuniu tal poder em si mesmo que, literalmente, podia tudo. Moisés, pelo poder divino que reuniu em si, conseguiu libertar o povo judeu do cativeiro no Egito, contra a vontade do Faraó. Buddha, quando conheceu a realidade da vida, largou tudo e buscou a iluminação (ou libertação do jugo e dos poderes da matéria). Enoch, pela sua fé e devoção, foi levado ao céu em corpo e alma. Isaías foi serrado ao meio porque se negou a comer alimento servido aos ídolos ou falsos deuses. Sócrates tomou cicuta e morreu feliz defendendo suas idéias até o último instante. Jâmblico, o grande mago, podia materializar Anjos e Deuses, e com eles conversava frente a frente. Samael Aun Weor, no século XX, devotou toda sua vida a aplainar os caminhos e a preparar o terreno para a vinda do Cristo em Aquário (algo que deve suceder após a Grande Catástrofe).

A gnose - simbolizada pelo fogo iluminador e gerador - arranca a alma do escolhido do pesado "sono" em que se encontrava submergida: daí o emprego de métodos de adestramento espiritual destinados a engendrar estados especiais de consciência e de supraconsciência. No entanto, constitui, uma vez alcançado, um conhecimento total,imediatoque o indivíduo possui inteiramente ou que carece absolutamente. É o "conhecimento" em si, absoluto, que abarca o Homem, o Cosmos e a Divindade. E é só através deste conhecimento - e não por meio da fé ou das obras - que o indivíduo pode sersalvo: sejam quais forem os traços característicos do gnosticismo como filosofia religiosa, a gnose se encontra definida por esta posição geral e também pela atitude existencial da qual procede. É por sua condição de experiência vivida que a gnose manifesta sua verdadeira originalidade.

Fonte: http://www.gnose.org.br/conteudo.asp?id=17&texto=1701&tipomenu=h&titulo=Gnose

http://www.vopus.org/pt/gnose/gnose-gnosticismo/gnose-o-conhecimento-salvador.html

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